terça-feira, 20 de outubro de 2009

Imagens da Natureza



"Isto que se passa com os animais, passa-se igualmente com o homem e só pode resultar de o factor natural que se manifesta em ambos os casos ser o mesmo."¹




Na segunda-feira dia 12 de outubro, em meio a uma quantidade imensa de informações que os vários tipos de mídias são capazes de nos repassar, um texto da Folha de São Paulo publicada nesse mesmo dia me chamou atenção. Trata-se da coluna de de Luiz Felipe Pondé entitulada ‘A carne ética’. O debate em torno do vegetarianismo e suas implicações éticas é caloroso, longo e estimulante, mas não é o foco do que quero falar aqui. Em um trecho de seu artigo o colunista e filósofo dispõe de uma visão de Natureza muito pouco aceita mas muito discutida na filosofia contemporânea: “[...]mas o que me espanta nesses ‘conscientes’ é a cegueira para o fato de que a Natureza não seja um mar dócil, mas sim um espaço de violência.”

A idéia de que a Natureza é um todo harmônico e pacífico é muito presente em nosso dia-a-dia, é visivel em discursos do tipo ‘em tal lugar tem-se contato com a Natureza’, onde esse lugar é um espaço calmo e sem conflitos; em filmes onde um leão ou um tubarão muda totalmente sua dieta para evitar devorar um amigo ou mesmo no discurso ecólogico que culpa a ação humana por instabilidades climáticas e afins. Essa visão da Natureza implica em uma necessidade de que haja moral da Natureza em busca de uma harmonia onde todos os seres possuem uma parte da responsabilidade para que tudo ocorra de forma ética em prol do bem estar e da co-existência de todos. Talvez para evitar incômodos à consciência ou por uma necessidade de ver sempre o lado bom, ou aquilo que nós humanos entendemos por bom, téoricos, pesquisadores e até mesmo observadores insistem em mostrar e discutir apenas os aspectos mais aprazíveis da Natureza.

Mas um olhar mais atento naquilo que acontece fora do conforto de nossa própria subjetividade pode mostrar que a Natureza não é bem assim. Guerra, violência, assassinatos, doenças, acidentes e todo tipo de infermidades acontecem o tempo todo na Natureza. Primatas que cometem infanticídeo, casos de parasitismo que levam o hospedeiro a morte, predatismo, o fato de que 99,9% das espécies que já existiram estão extintas e um dia as que existem hoje também estarão, até entre as plantas há competição e muitas só sobrevievm graças à morte prematura de outras. A Natureza é imoral! O homem não pode evitar mudanças ambientais e extinções de espécies, nem mesmo da espécie da humana. O mundo é constantemente modificado e reconstruído, e isso se dá graças à relação do ambiente com todos os organismos vivos e não apenas pela ação humana.

Ao longo da história da filosofia e das ciências humanas prevaleceu um ponto de vista que colocava o homem como um ser com capacidades privilegiadas que estavam acima da Natureza. A linguagem e a comunicação caracterizavam o homem como um agente superorgânico, descontínuo e acima das determinações biológicas. Esse status de exclusividade que a espécie humana dá a ela mesma na culpa pelas modificações ambientais, recai no mesmo erro de quem comete todo tipo de atrocidade na Natureza. O homem se considera senhor do mundo, um ser especial na Natureza, escolhido por sua divindade ou como intuito último da evolução, seja para cuidar de seu meio, seja para tê-la a seu bel-prazer.

O homem e suas características estão em continuidade com a Natureza, portanto, a cultura, a linguagem e a mente não são rupturas, mas sim variações naturais que são traços característicos do comportamento humano. São essas variações que tornam a espécie humana singular na Natureza da mesma forma que todas as outras espécies têm características que são específicas e as tornam únicas. Esses fenômenos tornam a espécie humana o que ela é e são resultados de processos biológicos que obtiveram sucesso evolutivo.

É evidente que a espécie humana tem sua responsabilidade, de pelo menos conduzir as coisas de forma a melhorar o bem estar e dá ao próprio ser humano uma vida digna. Se as coisas estão ruins é necessário propor mudanças, mas antes de tudo é necessário repensar o lugar do homem na Natureza, e o próprio conceito de Natureza, sem impor a tudo conceitos que são próprios do homem e de seu comportamento.



¹ UEXKÜLL, Jacob Von. Dos animais e dos homens. Lisboa: Edições Livros do Brasil, 1982 /1934 (data da primeira publicação) página 224


Imagem: Natural Born Killers, foto de Murat Süyür

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Irredutibilidade

"[...] uma pessoa pode conhecer ou falar a qualidade das experiências do outro. Elas são subjetivas, no entanto, no sentido em que mesmo essa atribuição objetiva de experiência só é possível para alguém suficientemente similar ao objeto da atribuição para estar apto a adotar o seu ponto de vista [...]"*


Enquanto caminhavamos, eu fingia não conhecer aquele lugar, aquelas ruas. Eu achava bonita a forma como ele se espantava com os absurdos dali... ele falava, falava, falava e eu escutava tudo nem sempre entendendo, mas com a certeza de que não esqueceria suas palavras. Fiquei imaginando como seria ver o mundo pelos olhos dele e por um momento tive a sensação de conseguir. Não era apenas pela diferença de vivência, eu jamais poderia entender como ele percebia o mundo, apesar de nossa comunicação constante, de saber tanto da vida dele, de compartilhar idéias e confidenciar alguns segredos, eu não compreenderia como o mundo se apresentava para ele.

No fundo era só isso que eu queria, entender como as coisas aconteciam para ele, mas a comunicação se tornou confusa e antes mesmo de chegar ao final de nosso trajeto a palavra começou a se perder e a interpretação daquilo que sobrava era completamente distorcida. Quanto mais perto estavamos, menos ele entendia o que eu dizia e mais eu queria entender o que ele pensava. Mas eu não entenderia e depois de não conseguir recolher o que se perdeu pelo caminho, desisti de querer, virei a primeira esquina e me dei conta da desvantagem que eu tinha em tentar lutar contra algo tão grande. Tantas pessoas, tantas possibilidades e um movimento que eu não poderia acompanhar.

Sentei na calçada, observei a moça do outro lado, ela tinha uma beleza particular e a tristeza daquele lugar a deixava com formas surreais. O ar ficou leve, fácil de respirar. Me levantei, nunca mais voltaria ao estado de coisas anterior, ele continuaria lá, inacessível e eu segui adiante, investigando um pouco mais sobre aquilo que poderia fazer com que eu me conhecesse melhor.


Imagem: Street Survivors, de Gilad Benari

*Trecho de "Como é ser um morcego?" de Thomas Nagel.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Indivisão

"Portanto, há indivisão do meu corpo, de meu corpo e do mundo, do meu corpo e dos outros corpos, e dos outros corpos entre si.

A indivisão. Indivisão de meu corpo e dos outros corpos; de suas cavidades, de seus relevos e daqueles dos outros corpos, e destes entre si.

Projeção – introjeção.

Condensações e deloscamentos fundados em equivalências."¹



¹De Merleau-Ponty, em "A Natureza"

Imagem: "Meya Culpa" de José D'Almeida e Maria Flores